Por que escrevo? organizado por José Domingos de Brito

por-que-escrevoEsse  foi outro livro que li no ensino médio, a resenha dele ficou guardada mas agora está aqui. Então espero que goste da resenha a seguir.

A obra organizada por José Domingos de Brito e publicada pela Novera Editora em São Paulo no ano de 2007 é uma verdadeira coletânea de entrevistas de variados autores dos mais diferentes estilos, épocas e pensamentos. Tal coletânea agrupa os depoimentos pelas respostas a pergunta que deu nome ao livro. “Por que escrevo?” é o primeiro livro da coleção lançada pela editora: Mistérios da Criação literária, Coletânea de depoimentos célebres e bibliografia resumida. Composto por 256 páginas em seis partes, sendo duas principais ― uma de entrevistas, que ocupa grande parte do livro com 121 declarações de autores nacionais e internacionais que Domingos de Brito selecionou entre cerca de 700 amostras desde meados de 1970; e outra, a bibliografia resumida de algumas dessas entrevistas. O organizador do projeto é Criador do site Tiro de Letra, Chefe do Centro de Documentação do Parlamento Latino-Americano e exímio colecionador de entrevistas com o único critério, que elas sejam de escritores. Ele também tem faculdade de Biblioteconomia e de Documentação, licenciatura em História e Geografia e em Estudos Sociais. José Domingos publicou esta obra aos seus 56 anos incentivado por diferentes acontecimentos e obras similares estrangeiras.

A primeira parte deste livro é um prefácio que foi deixado sob a responsabilidade do Professor, Crítico Literário e Membro das Academias Paulista e Mineira de Letras. Fábio Lucas introduz de modo bem baseado em filósofos e escritores renomados como a escrita pode ser comparada a filosofia e de como pode ser vinculada ao emocional tanto de quem lê como também com o de quem escreve. O convidado da obra menciona Roland Barthes (Sur Racine. Paris: Editions du Seuil, 1963) ao evidenciar o questionamento que nomeia o livro e conclui que o próprio ato de escrever é algo subjetivo, ficando a critério de cada um de acordo com sua história e linguagem. Em desfecho, ele declara: “[..] José Domingos de Brito colecionou centenas de respostas e a questão continua aberta. Não é estimulante continuar? A busca é literatura e a busca não tem fim.”

Logo após, Daniel Piza ― Crítico de Arte e Literatura, Escritor e Editor de Cultura d’O Estado de São Paulo ― faz a introdução do conteúdo principal da obra citando uma entrevista de Louis Armstrong quando o cantor de jazz afirma “Se você precisar perguntar, você não vai entender nunca.” e, logo após, contradiz Armstrong dizendo que na música e na literatura é necessário fazer as perguntas já que é um campo que trabalha com a subjetividade. Também utiliza as palavras do jornalista e escritor austríaco Karl Krauss, mas de forma insuficiente para o contexto proposto. Por outro lado, consegue cativar a atenção do leitor durante o capítulo de maneira distinta, com interatividade esboçando as reações do leitor de acordo com sua leitura.

O próximo convidado do livro cumpriu sua tarefa, Bernardo Ajzenberg Romancista, Jornalista e Assessor Executivo do Instituto Moreira Salles começa o terceiro capítulo, seguindo a mesma linha de escrita de Daniel Piza, consegue prender a atenção do leitor por questionamentos que o fazem seguir a leitura procurando por mais. Neste capítulo de apresentação, Ajzenberg realmente manifesta sobre o conteúdo do livro apontando as formações dele e um pouco ainda dos livros que seguem a coleção. Vale ressaltar o que Ajzenberg escreveu neste capítulo: “Quaisquer sejam as perguntas, na verdade, as respostas dos autores sempre terão algo de incompleto, certa hipocrisia, exageros e cinismo, um quê de fantasioso e até alguma mentira […]”, assim o autor faz o leitor não receber os depoimentos do livro como verdade absoluta mas como uma leitura que para ser absorvida precisa ser desconstruída e reconstruída para a formação de algo consistente.

No quarto capítulo, o organizador José Domingos de Brito passa a escrever em sua própria obra sobre a criação como um total: a sua criação da Coletânea de Depoimentos. Ele faz uma apresentação de seu livro com um ponto de vista diferente, mas é preciso ressaltar que já houveram algumas apresentações antes, precisamente três uma a cada capítulo. Seria oportuno lembrar ao autor nesse momento que dependendo de cada leitor tantas apresentações podem tornar a espera maçante ou até tal ansiedade causar ao leitor uma boa espera já que cada um dos capítulos são envoltos de uma ligação entre escritor e apreciador.

O próximo segmento do livro é o mais extenso e também o conteúdo principal da obra, o capítulo denominado “Depoimentos” é identificado como a primeira parte do livro como se as apresentações anteriores fossem somente um aperitivo e explicações, o que realmente eram. As respostas a pergunta “Porque escrevo?” são curtas e estão dispostas nesse fragmento do livro por ordem alfabética de acordo com o primeiro nome dos autores, junto com elas é apresentada a bibliografia resumida anteriormente citada para que o leitor além de conhecer a razão de o autor ter escolhido tal profissão, também saiba alguns dos fatos que o levaram a fazer esta escolha. Com diferentes públicos, cada um dos autores elaborou sua resposta criativamente peculiar, demonstraram ao serem indagados o porquê de seu trabalho, sua maneira de escrever e de interagir com os apreciadores de suas obras.

Domingos de Brito selecionou uma entrevista de Júlio Cortázar, é um dos poucos depoimentos que não tem tamanho reduzido junto com o depoimento do carioca Antonio Callado, George Orwell e alguns autores a mais. Numa linha geral, esses escritores optaram por explicar cada fato que desencadeou no hábito da escrita e de como ela afeta a vida e a mente deles. Renomados como o português Fernando Pessoa e o representante da literatura sul-mato-grossense Manuel de Barros expressam em poucas palavras como o trabalho deles é uma forma de se tornarem mais felizes e realizados enquanto vivem. Em menos palavras ainda (mais precisamente, em somente uma), o poeta e romancista suíço Blaise Cendrars ― pseudônimo de Frédéric-Louis Sauser ― causou polêmica e confusão na cabeça de cada um dos leitores, fazendo-os refletir sobre como uma palavra pode resumir a resposta minimamente longa a indagação que deu origem ao livro. O autor deixa transparecer insolência com essa única palavra, por outro lado com ela e algum tempo de reflexão, o leitor consegue captar a essência da palavra e a remota lembrança a pergunta feita em que por si responde a ela mesma: “Porque.”

Um outro depoimento que teve importância sobre a obra, foi a fala do Ensaísta, Poeta e Crítico Literário mexicano Octavio Paz. Ele fez uma relação bem baseada entre a poesia e a razão política dizendo que os escritores tem o papel de revolucionar o que tem ao redor. As palavras sutis de Paz dão razão aos prêmios que ele já recebeu, como por exemplo o Nobel de Literatura 1991.

Além de inúmeros ícones da literatura e da filosofia, o livro apresenta os depoimentos dos próprios escritores que participaram escrevendo alguns capítulos anteriores, eles são Bernardo Ajzenberg e Daniel Piza. Em sua declaração, Ajzenberg consegue assumir uma postura diferente da que usou para escrever o capítulo “Desafio ao Mistério”, prostra-se de maneira objetiva retomando sua profissão de jornalista. Ainda assim, a forma como ele escreve parece-me igualmente envolvente e verdadeira. Daniel Piza também muda seu discurso e mostra sua poesia ao dissertar sobre o porquê do ato escrever, com uma participação curta retirada da Gazeta Mercantil (São Paulo, 1º de março de 1998). Mas vale notar que os argumentos trazidos por ele não são similares aos outros mais do livro, em suma ele consegue trazer frases que permitem-me dizer que ele escreve por ele e pelos outros, reconhecendo que no meio da escrita é difícil perpetuar a fama, mas não impossível.

É possível notar também no discurso de alguns dos autores, a revolta sobre a pergunta tão repetida ao longo do livro. Marcelo Rubens Paiva, mesmo escrevendo de forma tão clara, confundiu-me em seu depoimento já que ele simplesmente devolve a pergunta. Mas não para o entrevistador, a indagação vai para o leitor. Outro autor que apresenta a revolta e arrogância causada pela pergunta é o inglês Lawrence Durrell, que toma uma postura egoísta quanto a razão, mas não me parece falsa. Assim como também a postura de Graciliano Ramos, que consegue transcrever sua espontaneidade até mesmo com uma resposta autoconfiante. O dizer de Millôr Fernandes, em uma postura sensata e simples, faz lembrar os traços do jornalista Bernardo Ajzenberg, os dois tem uma maneira sutil de explorar uma zona egoísta que se não trata de escrever para os que leem mas para expôr o que lhes vem a mente. Nas palavras de Roland Barthes presentes na obra retratada, são enumeradas as razões pelas quais ele escreve e elas são similares às muitas outras do livro, de diferentes autores, com estilos, nacionalidades, idiomas, personalidades completamente distintos. As dez razões numeradas de Barthes podem ser mais facilmente evidenciadas após a primeira e segunda leitura do livro.

A denominada “Segunda Parte” do livro traz biografias resumidas além das já presentes junto aos depoimentos da parte anterior. José Domingos disserta sobre cada uma das obras que utilizou para fazer esse coletânea e atribui grande valor a cada uma delas. Em geral, são obras que José Domingos se felicitou em utilizador como pilares para sua pesquisa, já que todas tem ligação de direta com o tema de sua obra. O autor de “Por que escrevo?” faz despertar no leitor a curiosidade por cada uma da obras em que ele se baseou de duas formas: a primeira, utilizando trecho delas mostrando a peculiaridade do escritor tratado e ressaltando seu modo de escrever; a segunda, foi fazer esta “Bibliografia Resumida” em que ele expressa como cada obra teve sua importância.

Conclui-se que a obra de José Domingos de Brito é um conjunto de incentivos ao início e melhora da escrita, para utilizá-la em prol de si mesmo e do próximo, podendo ser recomendada tanto aos mais experientes amantes da literatura como também aos iniciantes da escola. A obra também faz com que os próprios escritores reflitam no ato da escrita, mostrem o processo criativo para que outros também se inspirem.


Referências Bibliográficas

BRITO, José Domingos de Brito (2007). Por que escrevo? (3ª edição). São Paulo, Novera Editora.

Perfil online do escritor do livro: https://linkedin.com/domingos-de-brito

Entrevista com o escritor do livro: https:// www.bonde.com/?id_bonde=1-31—1-20110201 acesso em 06/10/2014

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